quarta-feira, 23 de abril de 2008
Blá-blá-blá e só.
De repente essa seja só uma fase de mudanças e isso está se refletindo em meus atos. (momento auto-psicologia barata)
Tá gente, eu sei que meu blog deveria se chamar "camaleão", mas é que eu não tô satisfeita poxa, deixa eu me acertar (o ideal seria ME ACEITAR né?!). Eu até tava felizinha com o layout cinza mas daí que o Eddie decidiu não gostar e eu fiquei imaginando aquela carinha de reprovação tão peculiar dele, rejeitando meu layout mezzo-depressivo e mudei. Lilás pode? (nota-se por aqui a necessidade de aprovação alheia que a pessoa tá) hahahahaha...
Bem, devaneios á parte, minha vontade não é agradar a todos, absolutamente!
Meu muito obrigada a vocês pelas palavras de consolo em relação ao post anterior; não vou me suicidar gente, era só uma ilustração (rá).
O fato é que tive uma semana difícil, com provas todos os dias, eu disse: TODOS OS DIAS, e isso me tirou um pouco do eixo retilínio da minha linha de equilíbrio (?). Nem Freud explica isso, e com certeza também não explicaria as respostas geniais que dei nas provas.
Fiquei super-hiper-ultra-mega-master-baster-advanced chateada porque sei que não vou fechar com uma nota digna das matérias de que mais gosto. Ontem até perguntei pra minha professora-mentora se ela iria me odiar pra sempre depois que lesse a minha "prova Einsten", e ela disse: não imagina, só que isso não me tranquiliza visto que ela costuma confiar mais em mim do que deveria, deve ter achado que eu tava fazendo uma média. Só Deus sabe... quisera eu fazer a média, ou seja, nota 6! hahaha. Diga-se de passagem ela veio brigar comigo quando tirei 8 na prova da monitoria (a nota máxima era 10). Imaginem o tamanho da decepção que vou causar. Oh Deus!
Pois é, já dizia minha vó: "Desgraça pouca é bobagem". Quando vêm, vêm tudo de uma vez!
Sim... sábios dizeres da vovó, além da semana "trash metal", Papai-do-céu achou que não era o suficiente e quis contemplar a condenada aqui com uma enfermidade.
Pausa - escrevendo isso me lembrei de que quinta-feira - data em que fiquei doente- pela milésima vez ligaram "enganado" lá em casa. Eu já tô de saco cheio, odeio telefone, e tem gente que acha graça em perguntar se é da cromadora. Pô meu, é o dia inteiro. Daí, á noite, eu me arrumando hiper apressada pra monitoria, um infeliz ligou e quando atendi ele disse: "Alô, Ana Paula?! Onde você tá?" Eu disse: "Oi, pois não, no polo norte e você?!" (precisava usar essa que faz parte da minha "top list" de tiradas ensaiadas que já postei aqui, acho que nunca teria outra oportunidade melhor), o cretino desligou, acho que nunca mais se engana, e eu caí na gargalhada. E você deve estar pensando: "Tá bom, e o que a doença tem a ver com isso?" Calma, eu explico. Mamãe ouviu tudo e começou a fazer aquela lista dos meus últimos episódios de má educação. Entre mil barbaridades, disse que eu ainda teria o troco, que Deus iria me castigar, e eis então mais um daqueles ditados: "Praga de mãe pega"... Pois é, o fato é que na quinta-feira mesmo, quatro horas depois do ocorrido, os sinais cabalísticos começaram a me perseguir. Sim, quase que não consigo terminar minha prova de prática de ensino. Sentia um frio tremendo - agora associei, deve ser porque disse pro moço do trote que estava no polo norte - mas é sério, eu estive tão moribunda, mas tão moribunda, que na madrugada de quinta pra sexta quase me levantei pra preparar o roteiro do meu velório: grupo de bossa-nova, os slides com meus melhores momentos, os convites individuais, o caixão com tampa de acrílico, o epitáfio, as flores brancas, enfim, essas coisas que sempre idealizei e que não serão possíveis no caso de uma morte repentina.
(Quer me assassinar? Entendo, tudo bem, não me oponho, acho até que mereço mas por favor, não deixe faltar nada disso na minha cerimônia fúnebre, lembre-se que cedo ou tarde nos encontraremos nos umbrais e acertaremos as contas, ok?)
Pois é caro leitor, sexta não pude vir trabalhar, visto que me sentia "nas cinzas das horas". Descansei? Não. Estudei o dia todo pra minha última prova. É, acho que pelo menos nessa não fui tão mal, eu sempre quis falar tudo que eu sabia sobre o mal-do-século, o tédio da vida, o spleen, a palidez, a melancolia, enfim, escrevi pra sempre e me senti quase um Álvares de Azevedo, só faltava a taverna e as bebidas, principalmente as bebidas.
Fui para o rancho a fim de ver se pelo menos o sol seria gentil comigo e adivinhem? Ele nem sequer deu o ar da graça.
Assisti filmes, me lembro que eu estava passando mais mal do estômago que aquele cobaia do Laranja mecânica, mas no meu caso, não era por causa da violência e nem da 9ª sinfonia de Beethoven, era praaaaga-puuuura.
O lado bom? Bein, tem que ser muito otimista pra ver lado bom nisso tudo, mas emagreci 2 quilos sem fazer esforço nenhum, apesar de ainda não saber se valeu muito á pena.
Acho que o pior da semana foi ter dois domingos. Sim, porque além do domingo básico que pra mim já é ultrajante, ainda teve o feriado de segunda-feira, que a deixou com uma super cara dominical. É muita felicidade! Pelo menos não repetiram o programa do Faustão, ou o Gugu (pelamor, isso ainda existe?), e mesmo que eu tenha terminado o dia no hospital São Joaquim aos cuidados de uma médica pra lá de estranha, não vou me abalar. Não vou. Não vou. Não vou.
Nada que uma noite de terça-feira e uma reunião maldosa entre amigas no Mc Donald's não resolva! Não há melhor terapia.
- Blá-blá-blá; você só sabe reclamar?
-Sim, por hoje é blá-blá-blá e só.
- Argh!
- :P
P.S. - Levei 4 horas pra compor essa postagem. O representante mais filet do universo e região chegou aqui então tive que fazer um social né, depois fui passear pelo centro com a Bê e atender vários pacientes chatos (só pra esclarecer: não sou médica, sou a secretária). A informação não é importante, mas talvez explique a falta de criatividade. Muita interrupção!
-Desculpa mais esfarrapada.
-Ah, cala a boca!
*Diálogo entre meu senso-crítico e eu.
-Que?? Eu ouvi "louca"??? Ma-gi-na-que-ca-lú-ni-a!
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UPDATE: Parênteses de pensamentos súbitos agora em branco em virtude das sugestões de Biel, o bardo. Sim, preocupo-me com o grande público. hahahaha
- Se mata!
- Oh!
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Expressão musical de sentimentos (?)
Sangue,
P.S.: Essa música é da Ana Carolina, mas hoje, com certeza poderia ser da Ana Laura. Amanhã, ou o dia que Deus (ou o diabo) permitir eu explico.
E que tudo mais vá pro... esquece, essa já é outra música.
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Update para satisfação quanto a mudança radical na cor do template:
Já ouvi falar que verde é a cor da esperança. Só que não tem nada a ver caros leitores, esse template super limão é porque rosa definitivamente não é a minha cor. Tá, a minha cor é preto mas blog preto eu acho muito clichê hoje em dia. Ah, esquece, já perceberam que não tô satisfeita ainda né!?
Coitado do blog, não tem nada a ver com a minha insatisfação em relação a tudo, e eu fico mudando e mudando a cara dele. Por favor, não dêem créditos, só descontos tá?!
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Update 2:
Mudei outra vez. Agora mais satisfeita, obrigada.
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Update 3 (último por hoje, prometo)
Como não pensei antes?!
Cinza!
P-e-r-f-e-i-t-o!
Expressa estado de alma e é tão blasè... Adoro.
Indo dormir quase satisfeita. =)
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Há tempo.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Sei lá, entende?
- Tinha mesmo um montão de coisas pra contar hoje aqui.
- Sério? então por que não conta?
- Ah, eu tava até entusiasmada, mas agora não tô com a mínima vontade de escrever nada. Tem dias que não dá vontade... Sei lá, entende?
- Não, não entendo.
- Ah, também estou muito ocupada e sem tempo, tenho que estudar.
- Então morre Ana Laura!
- Sim, "sinto que terei que pedir licença para morrer um pouco. -Com licença, sim? Não demoro. Obrigada."
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... Pausa para recordar o por quê de ter vindo postar sem vontade alguma...
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P.S.- Ontem falei, ou melhor, Clarice falou tanto em amizade sincera e hoje é dia quinze de abril, aniversário de um amigo desses, de loooooooonga data. Parabéns Filipe!
Como me prometeram, sei que ele será dirigido até o meu blog e lerá minha humilde, porém sincera homenagem (assim espero). Provavelmente eu não telefone e nem o veja, e como não temos mais orkut, ficam aqui os meus votos de felicidade.
É só saudade né... Do tempo de escola, das conversas, apostas (prefiro não comentar), das confidências, das cartas na semana da correspondência, das tardes em que ligávamos na rádio para oferecermos músicas, lembra? Daquela ída ao champagnat para fazer pesquisa com direito á ônibus lotado, digo S-U-P-E-R-L-O-T-A-D-O na volta, pisão no pé da senhora, a gente morrendo de rir. Das tardes lá em casa. Já me acompanhou na academia (com direito a contar o tempo dos exercícios pra mim), já foi comigo até ao cabelereiro e em várias festas de família. Já me viu rir, chorar, cair (literalmente) e levantar também. Enfim, se for contar tudo que já passamos nesse quase dez anos de amizade vou falar pra sempre. A vida nos dá irmãos de sangue, aqueles que nascem do mesmo ventre que a gente, e os irmãos de coração, aqueles que podemos escolher. E você é meu irmão por opção, por parte de Deus, com certeza.
Mesmo não estando mais tão presentes um na vida do outro, quero que saiba que sempre terá um espaço enorme no meu coração!
Own, coisa mais fofa isso gente... hahaha
P.S¹ - E Rosiany, casa logo com ele, senão quando fizermos trinta e cinco anos eu caso einh! (espero que ele tenha te explicado essa brincadeira, hahahaha)
Feliz aniversário irmãozinho!
P.S.² - (não é play station 2) - Zih, tudo bem que você sempre lê meu blog, mas aprende a comentar também orasss...
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Update para nota póstuma:
AINDA RECLAMOU POR EU NÃO LIGAR???
MUITO MELHOR UMA POSTAGEM NO BLOG DO QUE UMA LIGAÇÃO!
(JÁ ME CONTARAM QUE VOCÊ SE EMOCIONOU COM AS MINHAS PALAVRAS, HAHAHA)
E A RECÍPROCA É VERDADEIRA PORQUE SE EU BEM ME LEMBRO, ESSE ANO NO MEU ANIVERSÁRIO, EU SÓ RECEBI UM SCRAP, TUDO BEM QUE ERA UM SCRAP GIGANTE, MAS NADA DE LIGAÇÕES.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Uma amizade sincera.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados - mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto - eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade - posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura - seja dito de passagem, com vitória nossa - continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros."
Clarice Lispector in Felicidade Clandestina - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998
domingo, 13 de abril de 2008
Algo sobre dormir, bebidas alcólicas, revistas de beleza e DESARTICULAÇÃO.
Eu agora estranhamente sinto um gosto de perfume na boca. Perfume de verdade, como se eu tivesse bebido um gole. E estou precisando beber mesmo. Não perfume, mas qualquer outra coisa que também contenha álcool. Um martini talvez. Um não, acho que cinco.
Tô cansada de estudar. Minha mente tá cansada de aprender. Hoje mesmo eu peguei várias revistas de beleza, me contradizendo, pois critiquei minha mãe por assiná-las, e fui ler. Ler nem foi o caso, eu só queria mesmo ver as figuras. São coloridas e descansam a minha mente. Também sou contra ler revistas de beleza pois elas só nos fazem nos sentir mais feios e mais pobres. Então fico semelhante a um bebê de três meses, olhando as cores e os formatos, sem pensar em nada. É isso, eu preciso exatamente pensar em nada. Quando eu era criança, antes de dormir, às vezes eu ficava tentando não pensar. Mas nunca consegui, pois sempre atrás do pensamento articulado, tem um outro que é incontrolável, impertinente e que nunca se cala. Acho que é a consciência. Minha consicência é perturbada novidade. Eu sempre quis saber se as das outras pessoas são iguais a minha. A minha fala em meias e depois em parafusos e eu nem tô interessada nisso agora.
Confesso que eu também sou um pouco completamente desarticulada e também falo demais. É, a consciência é mesmo minha.
Entre desarticulações e esse monte de assuntos idiotas eu quero parar por aqui. Só vim postar porque não postei sexta e acho que o último post só teve 28 comentários porque eu demorei demais a postar outra coisa. Confesso que demorei mesmo porque acho um desaforo todo mundo comentar um simples "olá, como vai" e não se ligar em assuntos literários.
Tá vendo Clarice, sua carta bombou. Por nada.
E não se forcem a comentar essa merda graçinha de post. Vocês tem a minha simpatia. =)
Ok, já sei, estou insuportável, é que agora chegou o sono, já estou indo. Boa noite pra vocês também!
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Carta
O mais curioso é que ontem eu não me sentia nada bem. Estava envolta a uma melancolia totalmente efusiva, mas quando li aquela carta, da qual não se conhece o remetente, parecia mesmo que Clarice havia escrito para mim.
Não havia nem pensado em postar isso aqui, pois não é novidade eu me identificar com tudo que ela escreve, mas é que vindo de Clarice, para mim, nada nunca é demais.
Berna, 2 de janeiro de 1947
Querida,
Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.
Tua Clarice.
Obrigada Bill.