Sabe, é uma tremenda filha da putagem. Mudança é uma coisa que não vem de Deus. Ou, caetaneando, não. Uma vez, eu ouvi um pastor dizendo que toda mudança (pra melhor) é gerada pelo (ou gera) desconforto, e quer saber? Ele tava muito é certo. Mas eu cansei, inclusive já falei pro meu pai que não volto mais lá e tudo (na igreja) porque aquilo me cansa absurdamente, é a coisa mais previsível do mundo e eu detesto coisas previsíveis. Só que Deus é bom, e eu gosto dele apesar de todo o medo e da vergonha que eu
ainda tenho.
Eu fiquei parada olhando pros cômodos vazios daquela casa nova e toda bonitinha e então pensei que sou mesmo uma frígida insensível. Eu nem olhei pra trás quando saí da casa velha, não tive a mínima consideração e só me dei conta de que nunca mais poria os pés naquele lugar depois que já estava bem longe de lá. Mentira, eu me lembrei disso enquanto descia as escadas pela última vez mas eu não quis olhar pra trás e nem demonstrar nenhum apreço por aquele lugar e nem por aquelas pessoas. Elas também não gostam de mim.
Enquanto eu desencaixotava as minhas coisas fui vendo o quanto mudei. Eu era uma tremenda idiota há exatamente 24 horas, meu Deus!
Eu me deitei em um colchão na sala - porque o sofá ainda não chegou- e olhei através do vidro do jardim de inverno pra aquele céu que era o mais azul que eu já tinha visto na vida. Eu detesto azul, sobretudo o azul celeste mas no céu ele fica lindo, só no céu. Pensava em milhões de coisas e a única coisa que eu sentia era tédio. Eu queria mesmo que tudo aquilo fosse completamente verdade, a coisa da mudança, eu queria que fosse completa. Pela primeira vez na vida eu queria abrir mão de tudo. Do meu passado e das pessoas que eram importantes pra mim na época em que eu era uma tremenda idiota. Não, eu não queria falar com ninguém.
Impressionante como a CTBC anda eficiente. Em menos de meia hora após ser feito o pedido de transferência da linha telefônica e da internet havia um técnico na sala da minha casa instalando o telefone. Eu pedi baixinho a Deus que ele não pudesse instalar a internet ainda. E Ele me ouviu.
Eu queria me desocupar daquilo, eu pensei tanto em jogar todos aqueles escritos no lixo, junto com o meu celular, o ship e tudo, porque já que vou ganhar um novo queria também mudar de número. Mudar é sempre bom... E eu não vou passar meu número pra ninguém. Pra ninguém!
Verde é uma cor tão bonita. Eu quis o sofá verde, verde oliva. Contrastou perfeitamente com as paredes pêssego e com o barrado cor-de-laranja que tem antes do teto. Achei muito feliz.
A mesa da cozinha eu pedi verde-limão. Eu queria coisas felizes, apesar de não ser esse o sentimento total que me ocupava. Olhar pra cozinha e sentir felicidade forçada pelas cores vivas e fluorescentes é sempre bom.
Aquele piso branco me incomodava, dá pra ver qualquer sujeira, por mais mínima que seja. Tanta transparência me era desconfortável naquela hora. E todos brigavam comigo porque enquanto estava tudo uma bagunça eu me preocupava em ajustar os quadros na parede. Acho que os detalhes são importantes, oras.
Mamãe mandou eu comprar um armário pra colocar minhas agendas e papéis avulsos, disse que eu era uma nostálgica-apegada e que devia jogar aquilo fora porque tanto peso estava desalinhando as gavetas do guarda-roupas. Eu comprei o armário.
Ninguém me falou nada, mas eu sentia que estavam todos pensando que eu queria fugir dali. Eu nunca gostei de bagunça, muito menos de arrumá-la, mas estava estranhamente confortável no meio do desconforto daquela mudança.
"Preciso mudar", pensava.
"Se esse dia passar logo, amanhã vai ser diferente, porque eu já não sou mais a mesma, nem moro mais no mesmo endereço!".Eu já decorei o endereço novo. Estranhamente eu decorei depois de lê-lo pela primeira vez. Achava que só tinha facilidade para decorar músicas depois de ouví-las pela primeira vez, mas não, eu decorei o endereço, só não sabia o CEP, mas tanto faz, o importante era a minha sede pela mudança.
"-Vamos brincar de vida? Você cuida da sua e eu cuido da minha! O que fode é a falta de confiança, sabe? Simplesmente me canso, me canso de tudo, e você já sabia desde o início que eu iria ficar entediada, não sabia? Pois é, a hora é agora, o dia é hoje! Fiquei. E sabe por que? Porque simplesmente eu posso mudar, posso conhecer outras pessoas, posso acreditar nelas também, e quando eu me cansar delas, eu mudo outra vez, conheço outras e outras. Porque no final, baby, ninguém é de ninguém e eu não sou e nunca serei absurdamente previsível: pasme!"No dia anterior, ao chegar óbviamente atrasada na faculdade, fazia, apressada, uma leitura dinâmica da correção do artigo e conversava com uma amiga sobre a orientação do mesmo, enquanto ouvia, perifericamente, a professora dizendo:
"A gente só sabe de uma pessoa até onde ela quer nos mostrar, e só conhecemos alguém completamente depois que esse alguém morre. Todos podem nos surpreeender o tempo todo até o momento da morte. Isso é o que difere uma pessoa de um personagem, porque quando acabamos de ler um livro, conhecemos totalmente a personagem, mas na vida, não conhecemos ninguém completamente. Esse é um grande atrativo da literatura, pois nos dá a ilusão de podermos conhecer alguém por inteiro.""Cara, eu amo literatura! - pensei sorrindo antes de sair da sala-
e sabe? Que me perdoem Joana, Virgínia, Ana, Lóri, GH, Martin, Ângela e afins, eu gosto mesmo é da Macabéa."Enfim, hoje quando acordei, percebi que estava em casa e que tinha uma família que era incrívelmente a mesma, apesar das mudanças. E apesar de tudo mudar, eles continuavam os mesmos, com os mesmos puta-defeitos de sempre. E que me amavam, apesar dos meus puta-defeitos. E que eu os amo, apesar de terem os puta-defeitos também e de poderem me decepcionar a qualquer hora. E o amor é esse. Finalmente, eu estou feliz.
P.S - Acho que esse é o texto mais sub(jetivo)versivo que eu devo ter escrito na vida.Espaço reservado para as suas (possíveis) interpretações.